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Terremoto na Colômbia paralisa porto estratégico e pressiona mercado global de café
O terremoto de 7,4 na Colômbia bloqueou Buenaventura, principal porto de café do país, paralisando embarques. Veja o impacto e o que muda para o Brasil.
O terremoto de 7,4 que atingiu a Colômbia em 10 de agosto de 2026 bloqueou o porto de Buenaventura, por onde passam mais de 60% das exportações colombianas de café. Com a safra local já em queda e o Brasil acumulando alta de 53,2% nas exportações do grão ao país no período janeiro-julho de 2026, o evento reforça uma janela de oportunidade para exportadores brasileiros no mercado internacional.
O terremoto e seus impactos imediatos na logística
O tremor de magnitude 7,4, descrito como o mais forte da história recente da Colômbia, teve epicentro próximo ao município de San José del Palmar, no departamento de Chocó, região adjacente ao Eixo Cafeeiro. Até a publicação deste relatório, o desastre havia deixado mais de 250 mortos e afetado infraestrutura crítica de transporte, incluindo rodovias e aeroportos.
O impacto direto no setor cafeeiro concentrou-se em dois pontos: o porto de Buenaventura e a rodovia Cali-Buenaventura, a principal via de escoamento da produção colombiana para o Pacífico.
Segundo a Federação Nacional dos Cafeicultores da Colômbia (FNC), os terminais portuários de Buenaventura suspenderam as operações para inspeções de segurança, enquanto deslizamentos bloquearam múltiplos pontos da estrada de acesso.
A associação que representa os exportadores colombianos de café foi direta: a via para Buenaventura está inabilitada para veículos de comércio exterior. Operadores do setor relataram não conseguir levar cargas ao porto a partir do interior do país.
Conforme apurado pela imprensa internacional com base em declarações de traders de commodities com operações nos Estados Unidos, o transporte de café na principal região produtora da Colômbia foi descrito como "significativamente restrito", com a suspensão das operações de exportação no porto confirmada enquanto a infraestrutura é avaliada.
Dimensão do gargalo
A Colômbia exporta cerca de 1 milhão de sacas de 60 kg de café por mês, equivalente a aproximadamente 250 mil sacas por semana. Segundo a associação dos exportadores colombianos, uma semana de restrições completas represaria mais de 600 veículos e mais de 1.000 contêineres.
Com base nas exportações de café sem torrar registradas entre janeiro e junho de 2026 pelo Departamento Administrativo Nacional de Estatística da Colômbia (DANE), o fluxo médio suspenso equivale a cerca de US$13,3 milhões por dia.
O impacto da paralisação é agravado pela concentração geográfica da cadeia. A maior parte das beneficiadoras e plantas de processamento está instalada em cidades como Manizales, Pereira, Armenia e Cartago, todas dentro da zona afetada.
Regiões como Huila, Tolima, Cauca e Nariño, que concentram parte relevante da colheita atual, também enfrentam dificuldades logísticas para redirecionar o grão para os portos do Caribe (Cartagena, Santa Marta e Puerto Antioquia), que seguem operando normalmente. A escassez de caminhões disponíveis dificulta esse roteamento alternativo.
A FNC lançou levantamento para avaliar danos físicos em estruturas produtivas nas regiões de Risaralda, Valle del Cauca, Caldas, Antioquia, Chocó e Quindío, incluindo secadores, sistemas de água e equipamentos. Até agora, não há um balanço consolidado das perdas.
Reação dos mercados
Os futuros do arábica reagiram imediatamente ao risco de desabastecimento. Na terça-feira (11), os contratos chegaram a US$3,26 por libra, maior patamar em várias semanas, antes de recuarem parcialmente. Os contratos de setembro acumularam alta de 1% e os de dezembro, de 0,6%.
O contexto de mercado amplifica a sensibilidade aos choques de oferta: os contratos futuros do arábica já vinham acumulando alta de cerca de 30% desde o início de junho, impulsionados pelos temores associados ao El Niño. Os estoques de arábica monitorados pela bolsa de commodities de Nova York estão em níveis considerados muito baixos pelo mercado.
Contexto estrutural: safra colombiana já estava em queda
O terremoto não encontrou a Colômbia em posição confortável. A produção colombiana de café para 2026 já estava projetada em cerca de 12,8 milhões de sacas de 60 kg, ante 14,8 milhões em 2025, ano que havia sido o maior em 33 anos.
Os registros sugerem que a queda esperada na produção está associada a uma combinação de fatores climáticos adversos, incluindo o avanço do El Niño, que deve provocar mudanças de temperatura e precipitação nas principais regiões produtoras. Um fenômeno prolongado e intenso pode afetar também as lavouras no Brasil e no Vietnã, segundo especialistas.
Além disso, as exportações colombianas de café sem torrar somaram US$2,4 bilhões entre janeiro e junho de 2026, queda de 11,6% em relação aos US$2,7 bilhões registrados no mesmo período de 2025, conforme o DANE. O terremoto aprofunda uma trajetória que já era descendente.
Brasil-Colômbia: exportações de café em forte expansão antes do terremoto
O levantamento da Logcomex.ai para o período janeiro-julho de 2026 revela que o Brasil já vinha ampliando significativamente o volume de café exportado à Colômbia, mesmo antes do terremoto. O total acumulado no período chegou a US$187,5 milhões, ante US$122,4 milhões no mesmo intervalo de 2025, expansão de 53,2%.
Exportações brasileiras de café para a Colômbia (jan-jul, US$ FOB)
| Produto | Jan-Jul 2025 | Jan-Jul 2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| Café em grão não torrado (NCM 09011110) | US$106.264.442 | US$153.191.626 | +44,2% |
| Café solúvel (NCM 21011110) | US$15.719.602 | US$33.991.137 | +116,2% |
| Café torrado não descafeinado (NCM 09012100) | US$401.537 | US$280.368 | -30,2% |
| Total | US$122.385.581 | US$187.463.131 | +53,2% |
Fonte: Siscomex/MDIC. Competência: janeiro a julho de cada ano.
O destaque vai para o café solúvel, com expansão de 116,2% em valor FOB, e para o grão não torrado, que representa 81,7% do total exportado em 2026. A retração no café torrado é marginal em valor absoluto e não altera a tendência do conjunto.
Esses números refletem, em parte, a demanda colombiana por grãos brasileiros para complementar a produção própria, especialmente de conilon (robusta), utilizado em blends para o mercado interno e para reexportação. A Colômbia utiliza a variedade robusta para equilibrar custos em blends com arábica lavado, seu produto de exportação prioritário.
Oportunidade para o Brasil
A interrupção das exportações colombianas abre espaço para que o Brasil amplie sua presença nos mercados que dependem do arábica colombiano, especialmente os Estados Unidos, que absorvem cerca de um quinto das importações de café da Colômbia.
Analistas do setor agrícola consultados pela imprensa especializada avaliam que compradores internacionais que dependem do fluxo regular de café colombiano tendem a buscar origens alternativas para garantir abastecimento, criando oportunidade para exportadores brasileiros de arábica ampliarem participação em determinados mercados.
A condição para que o Brasil capture essa janela, contudo, é logística. Representantes do setor exportador brasileiro apontaram que o segmento ainda enfrenta baixa disponibilidade de arábica no primeiro semestre, resultado de uma safra 2025/26 menor, além de problemas climáticos na colheita e dificuldades logísticas que vêm afetando os embarques.
A expectativa é de melhora progressiva à medida que a safra 2026/27, projetada como recorde, avance.
Pontos de atenção para o comércio exterior brasileiro
Para importadores e traders: a paralisação em Buenaventura é temporária, mas sem prazo definido para normalização. Os exportadores colombianos não receberam comunicação oficial sobre a reabertura das vias. Mesmo após a liberação, o acúmulo de café pode provocar congestionamentos e atrasos nos terminais.
Para exportadores brasileiros: o momento é favorável para oferta de arábica, especialmente para clientes norte-americanos e europeus que habitualmente compram de origem colombiana. A janela tende a ser curta, mas pode antecipar contratos do segundo semestre.
Para operadores logísticos: os portos de Cartagena e Santa Marta seguem operando. Rotas de despacho alternativas pela costa caribenha colombiana devem registrar aumento de demanda e possível congestionamento nos próximos dias.
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Perguntas frequentes
- O porto de Buenaventura foi completamente fechado após o terremoto?
- Os terminais portuários suspenderam as operações para inspeções de segurança. Operações isoladas podem ter ocorrido, mas o fluxo normal de exportação de café foi interrompido. Não havia, até a publicação deste relatório, previsão oficial para a retomada integral.
- Quais portos colombianos seguem operando?
- Os portos de Cartagena, Santa Marta e Puerto Antioquia, na costa do Caribe, não registraram interrupções significativas. O desafio é logístico: redirecionar cargas do interior do país até esses terminais enfrenta escassez de caminhões e dificuldades de deslocamento nas rotas alternativas.
- Por que o Brasil exporta café para a Colômbia, se o país também é produtor?
- A Colômbia é especializada em arábica lavado suave para exportação. Para o mercado interno e para blends de reexportação, importa café robusta (conilon), variedade em que o Brasil tem vantagem competitiva em custo e volume. É esse fluxo que explica a expansão de 53,2% nas exportações brasileiras de café à Colômbia no período janeiro-julho de 2026.
- O terremoto pode gerar oportunidade permanente para exportadores brasileiros?
- Não necessariamente. A janela tende a ser curta e depende da duração dos bloqueios logísticos colombianos. O impacto estrutural de longo prazo dependerá da extensão dos danos às beneficiadoras e à produção na região do Eixo Cafeeiro, ainda em avaliação.
- O que o El Niño tem a ver com este cenário?
- O El Niño, que deve se intensificar em 2026, já havia contribuído para a projeção de uma safra colombiana menor (12,8 milhões de sacas, ante 14,8 milhões em 2025). Somado ao terremoto, o fenômeno climático adiciona pressão sobre a oferta e pode manter os preços do arábica elevados por mais tempo.