Insight
Aço: Cenário das importações no 1T de 2026
O primeiro trimestre de 2026 (1T26) revelou uma mutação estrutural no fluxo de importação de aço para o Brasil. Enquanto as matérias-primas e…

O primeiro trimestre de 2026 (1T26) revelou uma mutação estrutural no fluxo de importação de aço para o Brasil.
Enquanto as matérias-primas e semimanufaturados (Capítulo 72) enfrentaram barreiras tarifárias rigorosas, o volume importado via rotas logísticas alternativas (como o hub Rondônia-Santa Catarina) apresentou um crescimento disruptivo.
Simultaneamente, as obras de aço (Capítulo 73 ) registraram uma alta demanda setorial impulsionada pelo setor de Energia (Oil & Gas), com um aumento de valor superior a 700% em categorias específicas de tubulações de alta performance originárias da Europa, conforme dados consolidados do ComexStat (MDIC 2026).
Insights:
- Pressão deflacionária Chinesa: Redução média de 6% a 12% no preço por Kg em NCMs de volume, compensando a tarifa de 25% extra-cota.
- Pivot logístico: Consolidação do Porto de São Francisco do Sul como o principal nó estratégico para o aço plano.
- Especialização técnica: Dependência crítica de tubos sem costura alemães e espanhóis para projetos de infraestrutura no Rio de Janeiro
Contexto macroeconômico e defesa comercial
Políticas de cotas e tarifas (MDIC)
Em resposta ao excesso de capacidade global, o Governo Brasileiro, via MDIC/Gecex, estabeleceu cotas de importação para 15 subcategorias de aço.
As importações que excedem estes volumes são tributadas em 25%. Esta medida visa proteger a siderurgia nacional contra o "dumping" de excedentes asiáticos.
Cenário global 2026
De acordo com o World Steel Association, a descarbonização ("Green Steel") e a regionalização das cadeias de suprimento são as tendências dominantes.
No entanto, o custo de produção na China permanece o "benchmark" de preço para o mercado brasileiro, influenciando diretamente o CAPEX de indústrias de transformação e construção civil.
Análise setorial: Ferro Fundido, Ferro e Aço (Capítulo 72)
Este capítulo é caracterizado por commodities e produtos de primeira transformação.
A China mantém o domínio de market share superior a 80% em volume nas principais NCMs.
Top 5 NCMs mais relevantes (FOB 2026)
| NCM | Descrição | Valor FOB (1T26) | Variação Vol. (YoY) | Hub Principal |
| 7210.49.10 | Laminados planos galvanizados | US$ 151.7M | +12.000% (RO)* | São Francisco do Sul |
| 7210.70.10 | Laminados planos pintados/envernizados | US$ 71.4M | +15,2% | São Francisco do Sul |
| 7210.61.00 | Laminados revestidos (Al-Zn) | US$ 60.1M | -8,4% | Itajaí / SFS |
| 7208.26.90 | Laminados a quente em rolos | US$ 28.7M | Novo Fluxo | Pecém (CE) |
| 7207.11.10 | Billets (Quadrados) <0,25% C | US$ 22.3M | +5,1% | Belém (PA) |
Dinâmica de preços
O preço médio do aço chinês no NCM 7210.49.10 caiu de US$1,41/Kg em 2025 para US$0,57/Kg em 2026. Esta queda agressiva de 59% explica a viabilidade da importação mesmo sob regimes de taxação elevada.
Análise setorial: Obras de Ferro ou Aço (Capítulo 73)
O Capítulo 73 reflete o investimento em bens de capital e infraestrutura. O perfil de importação mudou de "peças miúdas" para "componentes estruturais de grande porte".
Top 5 NCMs mais relevantes (FOB 2026)
| NCM | Descrição | Valor FOB (1T26) | Origem Líder | Destino Líder |
| 7304.19.00 | Tubos p/ oleodutos (sem costura) | US$ 131.4M | Alemanha | Rio de Janeiro |
| 7302.10.10 | Trilhos de aço (> 44kg/m) | US$ 26.3M | China | Pecém (CE) |
| 7304.24.00 | Tubos de perfuração (Inox) | US$ 25.9M | Espanha | Rio de Janeiro |
| 7315.82.00 | Correntes de elos soldados | US$ 18.0M | China | Santa Catarina |
| 7308.90.90 | Outras construções e partes | US$ 14.8M | China | Santos (SP) |
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O "Boom" da energia no RJ
O salto nas importações alemãs para o Rio de Janeiro (de US$11M para US$97 M na NCM 7304.19.00) sinaliza a execução de grandes projetos de gasodutos ou expansão de campos de pré-sal.
A qualidade técnica alemã detém um monopólio de fato neste nicho, com valor unitário médio de US$11,69/Kg, contra apenas US$1,02/Kg da média de manufaturados chineses.
Inteligência logística e gargalos operacionais
De acordo com a Logcomex, o cruzamento de dados de volume (Kg) com as principais unidades de desembaraço aduaneiro (URF) identifica os seguintes pontos de atenção:
- Saturação em São Francisco do Sul (SC): O porto processou mais de 540 mil toneladas de aço no 1T26 apenas nas duas principais NCMs. Espera-se um aumento no tempo de desembaraço e custos de armazenagem.
- Eficiência de Pecém (CE): Surge como um hub eficiente para trilhos e laminados pesados, com fluxos constantes vindos da China e Coreia do Sul, apresentando lead times competitivos para o mercado do Nordeste.
- Complexidade em Santos (SP): Mantém a maior pulverização de NCMs do Capítulo 73. O gargalo aqui é burocrático (classificação fiscal) e não apenas físico.
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Conclusão
- Arbitragem logística: A utilização de Rondônia (RO) como estado importador via portos catarinenses tornou-se o padrão para grandes volumes. Recomenda-se auditoria de conformidade fiscal para garantir a perenidade desta operação.
- Mitigação de Risco de Cota: Dado o volume importado no 1T26, as cotas isentas de 25% para laminados planos devem esgotar-se antes do final do 3T26. É importante o planejamento de compras antecipadas ou a diversificação para NCMs substitutos não monitorados.
- Sourcing de alta performance: Para o setor de energia, a dependência da Europa (Alemanha/Espanha) pode ser um risco de custo (Euro forte). Recomenda-se a prospecção de fornecedores homologados no Japão ou Coreia do Sul como alternativa técnica.
Diante do cenário exposto, a gestão estratégica das importações de aço para o biênio 2026-2027 exige uma visão que transcenda a simples análise de custo unitário, integrando agilidade logística e conformidade regulatória de forma indissociável.
A convergência entre a pressão deflacionária exercida pela super capacidade produtiva chinesa e o endurecimento das medidas de defesa comercial brasileiras cria um ambiente de volatilidade onde o timing das operações de desembaraço torna-se o principal diferencial competitivo.
Empresas que consolidarem parcerias técnicas na Europa para componentes de alto valor agregado, enquanto otimizam o fluxo de commodities via hubs fiscais estratégicos no Sul e Norte do país, estarão melhor posicionadas para absorver os choques tarifários iminentes.
A sustentabilidade das margens operacionais dependerá, portanto, da capacidade das organizações em converter os insights de dados brutos em decisões antecipadas de sourcing, mitigando a dependência excessiva de rotas saturadas e garantindo o suprimento ininterrupto para os projetos vitais de infraestrutura e energia que sustentam o crescimento nacional.