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inteligencia-comercial · 06 de outubro de 2026

Stablecoins e a nova realidade para pagamentos internacionais

Entenda como as stablecoins mudam os pagamentos internacionais do comércio exterior e o que a nova regulação do Banco Central já exige das empresas.

Por Anne Coifman · 06 de outubro de 2026

Stablecoins e a nova realidade para pagamentos internacionais

O problema clássico do comex que a stablecoin promete resolver

Imagine a cena. Sua carga chega ao porto numa sexta-feira. O prazo livre de armazenagem está no fim. Para liberar a mercadoria, você precisa fechar o câmbio até as 10 horas da manhã, porque o dinheiro tem que cair na conta do armador na Europa antes do meio-dia local, quando o expediente por lá já está terminando. Se o câmbio tradicional não sai a tempo, a carga fica retida no sábado, no domingo e, se cair perto do feriado chinês de outubro, por até duas semanas. A conta de armazenagem sobe a cada dia parado.

Foi assim que um executivo de uma fintech de câmbio e stablecoins voltada a pequenas e médias empresas descreveu, durante um painel promovido pela Logcomex.ai, a dor que motivou boa parte da adoção de stablecoins no comércio exterior. Diferente do câmbio tradicional, que depende do horário bancário, a stablecoin liquida em minutos, 24 horas por dia, todos os dias da semana. A lógica lembra a que o Pix trouxe para pagamentos domésticos: menos fricção, menos espera, menos custo.

Por que o SWIFT começou a perder espaço

O fundador de uma das maiores exchanges de criptomoedas do Brasil, no mercado há quase 12 anos, contou que o Bitcoin foi o produto de entrada da empresa, mas a USDT, lançada em 2016, acabou assumindo o papel de trilho de pagamento que antes se esperava do próprio Bitcoin. Hoje, mais de 90% do volume diário negociado pela corretora, que afirma movimentar cerca de R$ 1 bilhão por dia, já é em stablecoin, não em criptomoedas voláteis.

A comparação que ele mesmo usa ajuda a entender o momento: assim como o Pix não eliminou TED e DOC da noite para o dia, mas se tornou disparado a opção mais rápida e mais barata, a stablecoin deve coexistir com o câmbio tradicional por um tempo, sendo, ainda assim, indiscutivelmente mais veloz. O endereço de uma carteira de criptomoeda faz, nessa analogia, o papel da chave Pix.

O ganho não é só velocidade, é capital de giro

Segundo o mesmo executivo da fintech de câmbio, o custo total de um pagamento em stablecoin fica bem abaixo de 1%, contra os 10, 20 ou 50 dólares que um pagamento via SWIFT costuma cobrar. Mas o ganho mais relevante, segundo ele, está em outro lugar: o capital de giro parado durante o trânsito do dinheiro. Enquanto um pagamento tradicional pode levar dias circulando por bancos correspondentes em Nova York, Europa ou Dubai, sem render nada nesse período, a stablecoin liquida em minutos e devolve esse dinheiro ao caixa da empresa quase de imediato.

Fornecedores já estão pedindo pagamento em stablecoin

O fundador da exchange relatou casos de clientes que recebem a fatura em cripto, pagam no mesmo dia e veem a mercadoria embarcada no navio horas depois, uma diferença de minutos onde antes eram necessários dias. Em alguns arranjos mais avançados, toda a cadeia de fornecimento permanece dentro da própria rede blockchain: o importador paga em USDT ou USDC, o fornecedor repassa a stablecoin para o próximo elo da cadeia, e a moeda fiduciária nunca entra em cena. É um comércio inteiramente liquidado em cripto, sem passar por conta bancária tradicional em nenhum ponto do caminho.

Os bancos não ficaram de fora

Um executivo de ativos digitais de um grande banco brasileiro contou que a instituição criou, em cerca de seis meses, uma estrutura dedicada a ativos digitais com nove frentes de negócio distintas, da corretora à custódia, incluindo a área internacional que processa pagamentos via stablecoin. Segundo ele, o banco participa de um piloto internacional de stablecoin ao lado de outras dezessete ou dezoito instituições no mundo e integra o que descreveu como um dos maiores consórcios globais de stablecoin, ao lado de grandes empresas de pagamento. No Brasil, o mesmo executivo mencionou parcerias com a Anbima, a CVM e o Banco Central em projetos de tokenização de ativos.

Esse movimento acompanha uma tendência mais ampla. Nos Estados Unidos, o Genius Act, sancionado em 2025, criou o primeiro marco regulatório federal para stablecoins de pagamento, com reservas líquidas obrigatórias e relatórios mensais dos emissores. Na Europa, o Regulamento MiCA passou a exigir, desde o fim de 2024, que prestadoras de serviços de criptoativos sejam autorizadas dentro do mesmo arcabouço financeiro da União Europeia, com um período de transição para quem já operava sob regras nacionais anteriores. O Brasil seguiu direção parecida a partir de novembro de 2025.

A régua regulatória que avançou nos últimos meses

Em 10 de novembro de 2025, o Banco Central publicou três resoluções (519, 520 e 521) que regulamentam o setor de ativos virtuais no país. Elas criaram a figura da Sociedade Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais, com capital mínimo de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões conforme as atividades exercidas, e passaram a tratar pagamentos e transferências internacionais liquidados em ativos virtuais como operações de câmbio, sujeitas a limites (US$ 100 mil para prestadoras de ativos virtuais, US$ 500 mil para corretoras de câmbio e de valores) e a envio periódico de informações ao Banco Central desde maio de 2026. Essas regras entraram em vigor em 2 de fevereiro de 2026, e prestadoras já em atividade tiveram 270 dias, até o fim de outubro de 2026, para pedir autorização formal de funcionamento.

E o que muda a partir de outubro

Em 30 de abril de 2026, o Banco Central publicou a Resolução 561, que atualiza as regras do eFX, o serviço de pagamento e transferência internacional em meio eletrônico usado por muitas fintechs de câmbio. A partir de 1º de outubro de 2026, fica proibido usar ativos virtuais, incluindo stablecoins, para liquidar pagamentos entre o prestador de eFX brasileiro e a contraparte no exterior. Segundo análise apresentada à Associação Brasileira de Bancos, essa vedação vale apenas para operações classificadas como eFX, e não representa uma proibição geral do uso de cripto em pagamentos internacionais. Uma operação de câmbio tradicional, feita por uma instituição autorizada e registrada no Banco Central, segue outro caminho regulatório.

Na prática, isso significa que empresas que hoje pagam fornecedores no exterior via stablecoin, dentro de uma estrutura de eFX, precisam rever esse modelo antes de outubro. Quem opera dentro de um contrato de câmbio formal, reportado ao Banco Central por uma instituição autorizada, tende a ter mais fôlego, mas ainda assim vale confirmar o enquadramento com o próprio provedor.

O IOF ainda é uma vantagem temporária?

Desde que passaram a ser tratadas como câmbio, as operações com stablecoin caem, em tese, no mesmo guarda-chuva regulatório que sustenta a cobrança de IOF sobre remessas internacionais. Mas a forma exata como esse tributo vai incidir sobre stablecoins ainda gera debate entre especialistas e não está totalmente pacificada na prática. O executivo da fintech de câmbio que participou do painel foi direto: considera essa janela temporária, e acredita que a cobrança deve se equalizar em algum momento, seja neste ano, seja no próximo. Para quem usa esse trilho hoje pensando em economizar os 3,5% de IOF que incidem sobre o câmbio tradicional de frete, vale tratar a vantagem como algo que pode mudar a qualquer momento, não como uma regra permanente.

Segurança: o que muda na prática

Um ponto levantado no mesmo painel: a estrutura bancária tradicional já convive com tentativas de fraude estimadas em um a três trilhões de reais por mês, segundo o executivo do banco. Para ele, a transparência própria das blockchains e a auditoria já exigida dos dois maiores emissores de stablecoin do mercado tornam esse ambiente comparável, em maturidade, ao sistema bancário. A partir de novembro, prestadores autorizados a operar com ativos virtuais no Brasil também passam por auditoria externa obrigatória, com critérios rígidos aplicados de forma igual a bancos e fintechs.

Do lado da concorrência, o mesmo executivo chamou atenção para um efeito colateral pouco discutido: emissores de stablecoin que hoje fornecem a infraestrutura para bancos e fintechs estão obtendo licenças próprias de instituição de pagamento no Brasil, o que os transforma de fornecedores em concorrentes diretos dessas mesmas instituições.

Conclusão

O comércio exterior brasileiro está migrando para um trilho de pagamento mais rápido, mais barato e disponível 24 horas por dia, sete dias por semana. A pesquisa mais recente do Datafolha em parceria com a Paradigma mostra que cerca de 29 milhões de brasileiros já possuem ou já possuíram ativos digitais, um sinal claro de que a adoção deixou de ser nicho. Mas o mesmo período que trouxe essa oportunidade também trouxe a régua regulatória mais detalhada até hoje sobre o tema.

Antes de adotar stablecoins nos pagamentos a fornecedores, vale mapear exatamente como sua empresa liquida hoje essas operações, confirmar se o provedor usado está dentro do novo marco de ativos virtuais ou se opera na modalidade eFX prestes a perder essa opção, e acompanhar de perto como o IOF vai incidir sobre esse tipo de operação. SWIFT e stablecoin devem conviver por um bom tempo. A empresa que entender cedo as regras de cada trilho sai na frente.

Acompanhar mudanças regulatórias, câmbio e novos trilhos de pagamento ao mesmo tempo exige visibilidade sobre toda a operação de comércio exterior. 

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Perguntas frequentes

O que são stablecoins e por que elas importam para o comércio exterior?
São ativos digitais com valor atrelado a uma moeda como o dólar, criadas para manter estabilidade de preço. No comércio exterior, elas permitem pagar fornecedores no exterior em minutos, 24 horas por dia, em vez de depender do horário bancário e dos prazos do sistema SWIFT.
As stablecoins vão substituir o SWIFT nos pagamentos internacionais?
Não de uma hora para outra. Especialistas do setor comparam esse momento ao que aconteceu com o Pix substituindo gradualmente TED e DOC: os dois sistemas devem conviver por anos, mas a tendência é que a stablecoin ganhe espaço por ser mais rápida e mais barata.
Ainda é permitido usar stablecoins para pagar fornecedores no exterior?
Depende de como a operação é estruturada. A partir de 1º de outubro de 2026, fica proibido usar ativos virtuais para liquidar pagamentos dentro da modalidade eFX. Operações de câmbio tradicionais, feitas por instituições autorizadas e reportadas ao Banco Central, seguem outro regime.
Existe IOF sobre pagamentos internacionais feitos em stablecoins?
As operações com stablecoin já são tratadas como câmbio pelo Banco Central desde fevereiro de 2026, o que as coloca no mesmo território regulatório onde o IOF costuma incidir. A forma exata de cobrança ainda está em debate, e o mercado trata a ausência atual de tributação como uma janela temporária.
Qual a diferença entre eFX e uma operação de câmbio tradicional para esse fim?
O eFX é um serviço simplificado de pagamento e transferência internacional em meio eletrônico, hoje usado por várias fintechs. A operação de câmbio tradicional passa por uma instituição autorizada pelo Banco Central e segue um regime de registro e reporte diferente. A partir de outubro de 2026, apenas a segunda modalidade continua podendo usar ativos virtuais na liquidação.
Por onde uma empresa importadora deve começar antes de usar stablecoins?
Pelo mapeamento da própria operação: identificar exatamente como cada pagamento internacional é liquidado hoje, confirmar o enquadramento regulatório do provedor usado e verificar se a empresa está preparada para o fim da liquidação em cripto dentro do eFX a partir de outubro de 2026.